CU É LINDO, CAPÍTULO 1: GÊNESIS, VERSÍCULO 2: MEMÓRIAS INFANTIS

Cura Gay
Adriano 002

CU É LINDO, CAPÍTULO 1: GÊNESIS, VERSÍCULO 2: MEMÓRIAS INFANTIS | 1983 | Corumbá | MS | Foto: Arquivo Familiar

“Cheguei ao mundo e ao passo que fui me desenvolvendo, crescendo naturalmente, assim como o sol nasce todos os dias e a lua brilha no céu, manifestei modos de ser considerados inadequados para um menino. Falo da não correspondência entre o que se manifestava em mim e a expectativa sociocultural. Uma marca me foi imposta pela sociedade, o sexo masculino, que arde em minha pele até hoje, sem que eu tivesse a mínima chance de ser visto e ouvido. Jamais um menino poderia manifestar a energia feminina de modo tão fiel, tão verdadeiro. Faziam parte deste modo de ser, brincar com as meninas e me identificar com movimentos de corpo e vestes do gênero teoricamente oposto ao meu. Isto era uma verdadeira afronta aos valores morais, militares e religiosos.

O que aconteceu comigo durante minha infância foi um verdadeiro massacre, um genocídio interior, uma profunda devastação. Senti na pele a dor da violência, da exclusão e da submissão dos desejos. Todas as minhas relações de afetos e desejos que passavam pelo Cu estavam terminantemente proibidas. Ainda pior, me fizeram acreditar que tais manifestações evidenciavam uma doença ou o que existia de mais desprezível. Sobre isso percebo que existe uma terrível coerção social quando a manifestação da diversidade dos modos de ser se revela e uma trágica noção que afirma que todo o homossexual masculino deseja ser uma mulher. Noção totalmente equivocada, pois em muitos casos este desejo não existe e em outros não se nasce um homem que deseja ser mulher, porque simplesmente o que nasceu foi uma outra existência. Uma vida que se cria para além do binarismo de gênero.

A narrativa social dizia que eu era uma criança viada, um viado, um projeto de bicha, uma tentativa de mulher, uma mulherzinha, uma mariquinha e etc. Estas eram algumas das formas que eu era chamado pelas ruas, pelos corredores do colégio, pelo baleiro quando eu ia comprar um pirulito – as vezes pedir um pirulito era igual a pedir: “deixa eu chupar seu pau?” Em muitos momentos estes nomes quase viravam meu nome social.

Lembro especialmente de uma professora que me chamava de mariquinha, um ato de escárnio, uma vez que eu só queria brincar com as meninas, acho que eu tinha 9 anos. A escola era um dos piores lugares que eu poderia estar. Um dos maiores medos que eu tinha quando eu era criança, e adolescente também, um verdadeiro terror, era que meu nome caísse no número 24 na lista da chamada escolar, você já imaginou, caro leitor, o que isso significava para a minha existência em sala de aula?

Absolutamente, a escola foi um longo período de tortura e sofrimento. Meus afetos eram constantemente desqualificados e a minha intuição e expressão de criativa a todo momento sumariamente constrangidos. Se existe algo que a escola me ensinou, continuamente, foi a me separar de mim, a ter medo do outro e a mentir, para mim mesmo e para o outro, forja desejos.

A transmissão do saber estava fundamentada nos ensinamentos das leis da falsa natureza e da desconexão da corporeidade ou separação do corpo, da mente e dos sentimentos. São raízes longínquas que poderíamos iniciar falado da substituição dos deuses ctônicos e os mitos pelos deuses olímpicos e a filosofia, ou ainda, a concepção mecanicista de Descartes e Newton. Aqueles que são exímios construtores de pontes de saber ainda reclamariam o direito de falar sobre a ação colonizadora, o genocídio material e imaterial dos povos, principalmente índios e negros, visto que habitamos as terras do pau-brasil.”

“Intestino fino passarinho, as memórias de uma grande parte da infância… provocam dores nos ossos!”

Esse é um trecho das escritas do Capítulo 1 do processo criativo-curativo “CU É LINDO” que desenvolvo na Pós-graduação em Arteterapia e Processos de Criação.

CU É LINDO | EM DEFESA DE TODAS AS FAMÍLIAS

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CU É LINDO, CAPÍTULO 6: ATIVISMO, VERSÍCULO 2: EM DEFESA DE TODAS AS FAMÍLIAS

Em 24 de Setembro de 2015, foi aprovado o texto principal do projeto do Estatuto da Família pela comissão especial que o discute na câmara dos Deputados, a comissão aprovou o relatório por 17 votos favoráveis e 5 contrários. Neste texto é afirmada a noção que define família como a união entre homem e mulher.

União entre homem e mulher?

A diversidade cultural, a liberdade afetiva e a expressão dos saberes tradicionais foram mais uma vez atacadas covardemente pelo poder dos discursos hegemônicos com fortes tendências fascistas e teocráticas ou, ainda, a relação afetiva e inconstitucional da política nacional com o fundamentalismo religioso, também celebrado por ruralistas e pistoleiros.

Ocupam-se em disseminar a ideologia da exclusão e do genocídio amoroso promovendo uma guerra no qual a cultura do ódio, o gênero e a sexualidade ocupam um lugar central em seus movimentos internos e externos.

Neste momento, não me parece plausível considerar tal façanha, deste minúsculo-gigante exército sanguinário e colonizador do estar em vida, sem falar também de algumas de suas outras grandes façanhas: o extermínio dos povos negros, indígenas e dos pobres e a utilização do terrorismo e da coerção do Estado para retirar a potência da autodeterminação dos povos.

Tal noção de família evidência o assombro egoísmo da profunda relação da ação colonial, do universalismo científico, da perversão religiosa e da corrupção estatal.

Os sinalizadores das diferenças e desigualdades pontuam um estado de calamidade pública onde todos, sem exceção, estão mergulhados numa tragédia coletiva.

Onde está o Adriano Cor? Onde está o Herinaldo Vinicius Santana? Onde está Semião Fernandes Vilhalva do povo guarani-kaiowá?

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Cura gay – primeiro movimento

Sentimentalidades Rupestres
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CU É LINDO, CAPÍTULO 6: ATIVISMO, VERSÍCULO 1: O AMOR É UM ESTADO QUE SE MANIFESTA | 2015 |Madrugada na Lapa | RJ | Mão de uma menina que chora amor | Foto: Kleper Reis

C – Você não quer se secar?

U – (pulando) A chuva acabou e com ela foi a minha vontade de fugir, mas fico sempre sem saber… (passando a mão pelo corpo como quem quer se secar) acho que sempre tive um pensamento épico… repleto de honras, promessas, lembranças e histórias. (silêncio) Sinto uma força amorosa tão fecunda!

C – (olha singelo e sorriso) Posso ver no brilho dos teus olhos.

U – (tremendo de frio) Você vem comigo?

C – Pra…

U – Pro que der e vier! Com absoluta liberdade da palavra, até onde for possível a gente chegar.

C – (explodindo de medo e alegria, sorrindo muito)

U – É só o amor. Vamos falar do amor que brota sem pedir licença para nascer. Do amor potente que nem as plantas que nascem nas frestas dos muros e entre os paralelepípedos da rua. Daquele que mesmo sem a gente ver, nos sentimos bem em cantar.

C – Isso me faz forte!

U – Podemos pegar giz ou tijolo de construção e rabiscar as paredes com versos lindos e o chão com estrelas, bem ali onde a chuva apagou… (baixinho) acho que estou gostando de alguém!

C – (frenético) Quero.

U – Tenho giz colorido lá dentro e o tijolo a gente arranca um pedaço do muro.

C – (indo pegar o giz) Pega o tijolo que eu pego o giz. Onde?

U – Espera!? (se aproximando de C e um pouco tímido) Posso ver os seus olhos? (se aproximando ainda mais)

C – O que foi?

U – (quase sussurrando) Quero me ver em você e você em mim.

C – (com os hálitos quase se entrelaçando e olhares na mesma direção e com uma voz singela) O que você pensa sobre o amor? O que é pra você?

U – (em um súbito rompante de entusiasmo) Eu-nós-corpo se percebe amando.

C – Eu-nós-corpo?

U – O amor é um estado que se manifesta, o amor-paixão. Sentido de vida que simplesmente se manifesta na diversidade, nas infinitas possibilidades de estar e ser, na autopoieses… uma vida que se cria continuamente a si própria e em relação com o outro, seja ele animal, mineral ou vegetal. Uma vibração que emerge do ventre da humanidade e faz trepidar o corpo livre nas profundezas do ser, puro movimento. Não sei. Sinto. Não escolho. Me percebo amando. Simplesmente acontece.

C – (senta no batente da porta com ar de pensativo)

U – Eu me reconheço como um microuniverso, como uma subjetividade, um indivíduo com uma identidade. Sou protagonista de mim… tento ser. Isso tudo simultaneamente a noção de estar contido no universo. Por isso o nós. Eu sou você e você sou eu. Eu sou tudo e o tudo sou eu. É a tradução da experiência da epifania da unidade, do yoga, da energia cósmica universal. Junto a tudo isso o corpo, eu-corpo-alma, integrado e manifesto, na inter-relação de muitas consciências-inconsciências que juntas formam essa pele, olhos, lábios, sangue, pelos, suor, saliva, vísceras…

C – O amor é algo que acontece no todo visível e invisível, sem regras e morais, sem as noções de público e privado, sem dogmas religiosos, sem códigos de leis…

U – Sim. É sentimentalidade rupestre. É muito antigo. O amor pode ser encontrado em todos os vestígios, no fóssil!

(olham-se profundamente)

U – Pega o giz na estante amarela do último quarto. Depois pule a janela que você vai me encontrar.

(U corre em direção ao quintal e C corre para dentro da casa. U começa a quebrar um pedaço do muro e C fica parado olhando para U da janela)

C – (grita) Cuidado para você não se machucar.

U – (olha para C rindo e volta a quebrar o murro) O amor é um estado que se manifesta! O amor é um estado que se manifesta! O amor é um estado que se manifesta! O amor é um estado que se manifesta!

C – (pega o giz e pula com certa dificuldade a janela e derruba todo o giz no chão e cai)

U – (corre em direção a C) Você esta bem?

C – (gargalhando) Sim!

U – (se joga no chão e começa a gargalhar também)

C – (fica de pé e pega um giz amarelo e um branco corre para a parede e escreve: o amor é um estado que se manifesta)

U – (fica olhando e depois corre e escreve: C e U, juntos, é lindo!)

C – (nervoso) A paga isso! Apaga. Ninguém pode ver.

(U fica parado olhando para C. C anda em direção as escritas de U e começa a apagar. U abraça C)

C – (grita) Me solta.

U – (fala amoroso) A sociedade é trágica, mas ainda temos a oportunidade, com a força de nosso amor, de mudar o mundo.

(C chora nos braços de U)

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