Cura gay – primeiro movimento

Sentimentalidades Rupestres
projeto amor manifesta1

CU É LINDO, CAPÍTULO 6: ATIVISMO, VERSÍCULO 1: O AMOR É UM ESTADO QUE SE MANIFESTA | 2015 |Madrugada na Lapa | RJ | Mão de uma menina que chora amor | Foto: Kleper Reis

C – Você não quer se secar?

U – (pulando) A chuva acabou e com ela foi a minha vontade de fugir, mas fico sempre sem saber… (passando a mão pelo corpo como quem quer se secar) acho que sempre tive um pensamento épico… repleto de honras, promessas, lembranças e histórias. (silêncio) Sinto uma força amorosa tão fecunda!

C – (olha singelo e sorriso) Posso ver no brilho dos teus olhos.

U – (tremendo de frio) Você vem comigo?

C – Pra…

U – Pro que der e vier! Com absoluta liberdade da palavra, até onde for possível a gente chegar.

C – (explodindo de medo e alegria, sorrindo muito)

U – É só o amor. Vamos falar do amor que brota sem pedir licença para nascer. Do amor potente que nem as plantas que nascem nas frestas dos muros e entre os paralelepípedos da rua. Daquele que mesmo sem a gente ver, nos sentimos bem em cantar.

C – Isso me faz forte!

U – Podemos pegar giz ou tijolo de construção e rabiscar as paredes com versos lindos e o chão com estrelas, bem ali onde a chuva apagou… (baixinho) acho que estou gostando de alguém!

C – (frenético) Quero.

U – Tenho giz colorido lá dentro e o tijolo a gente arranca um pedaço do muro.

C – (indo pegar o giz) Pega o tijolo que eu pego o giz. Onde?

U – Espera!? (se aproximando de C e um pouco tímido) Posso ver os seus olhos? (se aproximando ainda mais)

C – O que foi?

U – (quase sussurrando) Quero me ver em você e você em mim.

C – (com os hálitos quase se entrelaçando e olhares na mesma direção e com uma voz singela) O que você pensa sobre o amor? O que é pra você?

U – (em um súbito rompante de entusiasmo) Eu-nós-corpo se percebe amando.

C – Eu-nós-corpo?

U – O amor é um estado que se manifesta, o amor-paixão. Sentido de vida que simplesmente se manifesta na diversidade, nas infinitas possibilidades de estar e ser, na autopoieses… uma vida que se cria continuamente a si própria e em relação com o outro, seja ele animal, mineral ou vegetal. Uma vibração que emerge do ventre da humanidade e faz trepidar o corpo livre nas profundezas do ser, puro movimento. Não sei. Sinto. Não escolho. Me percebo amando. Simplesmente acontece.

C – (senta no batente da porta com ar de pensativo)

U – Eu me reconheço como um microuniverso, como uma subjetividade, um indivíduo com uma identidade. Sou protagonista de mim… tento ser. Isso tudo simultaneamente a noção de estar contido no universo. Por isso o nós. Eu sou você e você sou eu. Eu sou tudo e o tudo sou eu. É a tradução da experiência da epifania da unidade, do yoga, da energia cósmica universal. Junto a tudo isso o corpo, eu-corpo-alma, integrado e manifesto, na inter-relação de muitas consciências-inconsciências que juntas formam essa pele, olhos, lábios, sangue, pelos, suor, saliva, vísceras…

C – O amor é algo que acontece no todo visível e invisível, sem regras e morais, sem as noções de público e privado, sem dogmas religiosos, sem códigos de leis…

U – Sim. É sentimentalidade rupestre. É muito antigo. O amor pode ser encontrado em todos os vestígios, no fóssil!

(olham-se profundamente)

U – Pega o giz na estante amarela do último quarto. Depois pule a janela que você vai me encontrar.

(U corre em direção ao quintal e C corre para dentro da casa. U começa a quebrar um pedaço do muro e C fica parado olhando para U da janela)

C – (grita) Cuidado para você não se machucar.

U – (olha para C rindo e volta a quebrar o murro) O amor é um estado que se manifesta! O amor é um estado que se manifesta! O amor é um estado que se manifesta! O amor é um estado que se manifesta!

C – (pega o giz e pula com certa dificuldade a janela e derruba todo o giz no chão e cai)

U – (corre em direção a C) Você esta bem?

C – (gargalhando) Sim!

U – (se joga no chão e começa a gargalhar também)

C – (fica de pé e pega um giz amarelo e um branco corre para a parede e escreve: o amor é um estado que se manifesta)

U – (fica olhando e depois corre e escreve: C e U, juntos, é lindo!)

C – (nervoso) A paga isso! Apaga. Ninguém pode ver.

(U fica parado olhando para C. C anda em direção as escritas de U e começa a apagar. U abraça C)

C – (grita) Me solta.

U – (fala amoroso) A sociedade é trágica, mas ainda temos a oportunidade, com a força de nosso amor, de mudar o mundo.

(C chora nos braços de U)

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Dos muros onde lemos “cu é lindo”

Reverberação
CU É LINDO, CAPÍTULO 1: GÊNESIS, VERSÍCULO 3: Sentimentalidades Rupestres | Ação Multiplicadores | Rio de Janeiro

CU É LINDO, CAPÍTULO 1: GÊNESIS, VERSÍCULO 3: Sentimentalidades Rupestres | Ação Multiplicadores | Rio de Janeiro

“Finalmente, depois de séculos de recalque e aparições muito pontuais (refiro-me à clássica capa de “Todos os olhos”, de Tom Zé), o cu emerge com força na cena cultural brasileira. Dos muros onde lemos “cu é lindo” à “Polka do cu” de Tatuagem, filme de Hilton Lacerda, passando pela literatura de Hilda Hilst e por Cooking, o belo – e, dirão alguns, polêmico – vídeo de Tunga para a série Destricted, ele, o cu, está por toda parte. Isso para não mencionarmos certo movimento na política brasileira contemporânea que decidiu investir pesadamente na colonização de nossos cus, colocando-os, não poucas vezes, no centro dos debates que marcaram estas últimas eleições.”

“Apesar da onipresença do cu entre nós, os filósofos franceses Gilles Deleuze e Félix Guattari destacam que o cu foi “o primeiro órgão a ser privatizado, removido do campo social”. E como tudo o que é violentamente privado da vida pública por longos períodos de tempo, o cu agora se insurge contra o sistema que o baniu. Liu-liu, personagem de uma micro-narrativa escrita por Hilda Hilst, por exemplo, é um sapo que, com muita pena do seu cu, que só olhava para o chão, informou-se e deu o seu jeito para receber um raio de sol no cu. Mas Liu-liu ficou divido. Seu cu, maravilhado com a beleza do mundo, pois sequer sabia da existência das borboletas, teve problemas sérios de auto-estima.”

Em http://www.ocluster.com.br/a-utopia-do-cu/, por Icaro Ferraz Vidal Junior

CURA GAY – primeiro movimento

Sentimentalidades Rupestres
CU É LINDO, CAPÍTULO 1: GÊNESIS, VERSÍCULO 3: Sentimentalidades Rupestres | 2013 | Junto ao projeto EU AMO Catumbi | RJ Foto: Igor Abreu

CU É LINDO, CAPÍTULO 1: GÊNESIS, VERSÍCULO 3: Sentimentalidades Rupestres | 2013 | Junto ao projeto EU AMO Catumbi | RJ | Foto: Igor Abreu

C – (firme) Pode começar.

U – (na posição de pantera negra) A fé na vitalidade. No que a força da vida tem de mais exuberante, ( se jogando na terra, milanesa) eu quero. Quero as fezes que aleitam a terra e as sementes germinando o novo amanhecer. Quero o mato verde, os frutos coloridos e as flores e as rosas que nascerem desta terra, bem celebradas, no estar em vida real, a união do fausto com o infausto. (dançando entre as plantas e arrancando uma rosa) Quero o transbordar do amor conato, criando estratégias de fuga do medo que paralisa os sonhos, do desespero que isola e da esperança que de tão romântica nunca se realiza, espera.

C – Como você pretende realizar isso?

U – (em pé comendo pétalas de rosas vermelhas) É preciso extrair potência da fertilidade do Cu para transformar os afetos tristes mais densos e sombrios em alegria, afeto artístico-político. Deixar as súbitas expressões interiores transformar-se em matéria concreta criativa. Alguns chamam isso de obra de arte, eu prefiro chamar de acontecimentos cênicos ou artesanato íntimo.

C – É muito sensível isso que você faz.

U – É trabalho de investigar a dor aliado ao ofício de tradutor-artesão com fortes características de inventor. É preciso força, resistência e determinação para transmutar o ódio em amor!

C – (correndo para a varanda) Sai da chuva!

U – (sai correndo em direção a rua)

(Chuva forte)